Ao longo dos anos perdi a conta às vezes que ouvi “vida boa… fartam-se de viajar!! assim ‘tá bem!” cada vez que o assunto era o meu trabalho. Ao início ainda ripostava, mas depois deixei-me disso. Não vou ser hipócrita e dizer que não vemos nada, é mentira. Viajo muito, para sítios onde talvez uma vida diária de secretária e computador não me levasse, e as férias não me encaminhassem para lá. Conheci recantos, povos e culturas que mais que nos encher a vista, enchem-nos o coração e, acima de tudo, a alma.
Mas também é verdade que depois de ir, chegamos à conclusão que dentro daquilo que achamos que é um pequeno rectângulo à beira mar plantado há tanto, mas tanto para ver que nem fazemos ideia! Às vezes, os lugares fora dos guias turísticos são os melhores. Quantos de nós, que vivemos nos centros urbanos, vemos os nossos filhos a saberem o que é uma vaca, mas sem nunca terem visto nenhuma? Quantos deles não fazem a menor ideia de onde nascem os legumes ou como é que a terra os faz nascer. Nem sempre é culpa nossa quando isso acontece, mas é uma realidade quase incontornável quando vivemos longe do campo. Conheci a Quinta da Pedra Branca há uns meses e apaixonei-me pelo conceito. A D. Teresa, dona da Quinta é uma senhora sem medo de pôr as mãos ao trabalho, criou um conceito que permite levar até às pessoas a riqueza de uma alimentação saudável contornando as nossas habituais desculpas. Todas as semanas trazem até, literalmente, à nossa porta, um conjunto de frutas e legumes variado, personalizado ou aleatório, do tamanho que quisermos. Além disso, abrem as portas das suas terras para quem quiser ver crescer aquilo que chega até à sua mesa e conhecer alguns dos animais da quinta. Foi isso que decidi fazer a semana passada.

Se gosto de ser turista lá fora, porque não cá dentro? Peguei no meu “mais piqueno”e lá fomos nós até Sobral da Abelheira (perto de Mafra). Disse-lhe que íamos dar um passeio os dois… quando cheguei à parte do “uma quinta com animais” já tinha conquistado toda a atenção! O Francisco é louco por animais (talvez por isso não seja nada dado a comê-los) e terra é com ele! Mal tínhamos chegado, ainda na altura das apresentações, já dizia o Francisco com a sua habitual lata para a d. Teresa “Que animais tem na quinta”? Com enorme carinho e um sorriso, a D. Teresa virou logo as atenções para ele: “Galinhas e porcos”. Claro que a subtileza natural do meu filho rematou com “só? podemos ir vê-los?”.

O passo apressou-se e foi incrível ver como uma criança tão pequena absorvia cada palavra que lhe era dita sobre como era cuidar de porcos. Isto, claro, enquanto corria ao longo da vedação de protecção em longas e profundas conversas com a porca mãe. Entretido há longos minutos, solta um pensativo “eles não comem?”, “Comem depois de almoço” disse a d. Teresa, “Então eu vou ficar aqui ate depois de almoço, porque quero dar comida aos porquinhos!”. Ainda era cedo e ainda faltava continuar a visita à quinta, conhecer a estufa e observar todos os produtos biológicos cultivados pela Quinta. Mas o Kiko insistia… “eu fico aqui!!” e começou o choro! Tava ali o filme armado… mas sem hesitar, a d. Teresa chamou a Suzete, uma das colaboradoras da quinta, que apareceu com frutas para lhe fazer a vontade. Ao ouvir as palavras da d. Teresa, o Kiko limpou as lágrimas e soltou um “eu posso dar fruta aos porquinhos??”. E voltou a fazer a criança feliz! Podíamos finalmente prosseguir com a visita, apesar do “Mãe, agora tenho que esperar que eles comam!!” do Francisco.
O que mais me encanta neste projecto é a garantia do que comemos ser o mais puro possível. Ali não entram fertilizantes e nem pesticidas. Frutas, ervas aromáticas, feijão verde, cebolas, alface, couve-flor, alface… ali juntei-me ao entusiasmo do Kiko e perdi-me no verde e nos encantos da natureza. Aprendi imenso, enquanto o Miguel, outro colaborador da Quinta, desafiava o Kiko para ir aprender a plantar um alho francês.
Não imaginam o sorriso do meu filho a caminho de casa. Cada pessoa que nos ligava lá ouvia a história dos porquinhos, da fruta e do alho francês.
Saí dali a pensar porque é que o “é mais caro” vale mais do que o nosso estômago…

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